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Como Não Vender Cerveja Para Mulheres – Proibida Puro Malte

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Demorei um pouco para digerir o fuzuê que a propaganda do lançamento dos novos rótulos da Cervejaria Proibida provocou no público feminino, em maioria. Resolvi tirar um tempo para entender o que a marca pretendeu, o que nós mulheres cervejeiras sentimos e qual a opinião do público não-cervejeiro em geral. Foram muitas questões e peço desculpas antecipadamente se eu não conseguir discursar sobre os pontos com a profundidade que estes necessitam. Relevem um pouco minha pouca paciência em tratar alguns temas óbvios e que já foram apresentados em outros posts (acompanhem clicando aqui).

Então vamos lá!

Meu primeiro contato com essa treta foi quando alguém marcou o meu perfil na postagem da Cervejaria no Facebook e assim que li o texto do post pensei: PUUUUUUUUTZ, que merda! Sério que fizeram isso de novo? Não é possível que não aprenderam nada gente??!! Até que eu li um comentário absurdamente coerente e que incentivou me a escrever sobre isso:

 

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A partir daí precisamos entender que a cultura cervejeira de consumo feminino é muito recente. Gosto de lembrar sempre que as mulheres eram responsáveis pela produção da cerveja nos primórdios da História, mas apenas porque cabia às mulheres a função de cozinha, de produção do alimento e por isso por muitos anos as mulheres detiveram o know how da concepção da cerveja. Os vikings, por exemplo, criaram uma lei onde apenas as mulheres eram tinham autorização para produzir cerveja. Ou seja, historicamente o líquido sagrado sempre pertenceu ao feminino. Esse domínio da mulher só diminui no final do século XVIII, quando a produção da cerveja em larga escala se tornou um negócio rentável e foi assumido pelos homens. Isso aconteceu por dois motivos: acreditava-se que a habilidade comercial era uma característica masculina e que as mulheres não tinham capacidade para se adaptar às novas tecnologias para a produção da cerveja.

Com o passar dos anos a cerveja (as bebidas alcoólicas em geral) tornou-se uma bebida imprópria para as mulheres o que fez o consumo por esse público tornar-se ínfimo até alguns anos atrás. O formato desse consumo é apenas mais um reflexo da sociedade centralizada no masculino que vivemos. E se são os homens que bebem, são eles o público alvo das cervejarias, por isso a existência de propagandas que cultuem o masculino, a virilidade, a objetivação da mulher e por aí vai. Mas, pode parar! O mundo mudou queridinho e em 2013 a Cervejaria Bohemia fez uma publicidade que causou frisson no público feminino:

Essa propaganda fez as cervejarias acordarem para um público feminino que estava sedento por um produto que as representassem, que falasse a língua delas, que colocasse a mulher no centro das atenções, ao menos em 50% das vezes. O mundo percebeu que o feminismo não era modinha, mas uma necessidade e que a mulher estava realmente conquistando o seu lugar em espaços antes majoritariamente masculinos. As mulheres invadiram o bar. Não apenas como acompanhantes, mas como protagonistas. Grupos e mais grupos de mulheres começaram a frequentar esses espaços e dominá-los a ponto, por exemplo, dos donos dos bares terem de adequar seus estabelecimentos acrescentando banheiros. Estranho né? Mas até cerca de 10 anos atrás poucos bares continham banheiro porque, pasmem, o público masculino podia urinar em qualquer lugar, não precisava de papel, de nada… O feminismo estava causando uma mudança estrutural de fato! Isso foi o máximo. Mas notoriamente não foi suficiente, pois continuamos a ver em pleno 2017 uma campanha que intensifica características femininas estereotipadas, como “bebida leve e delicada”.

Já discutimos neste post aqui sobre um dos mitos cervejeiros segregadores mais famosos, o mito de que mulheres preferem bebidas doces. Paladar é adaptativo e muito mais uma construção social do que biológica. Diz respeito efetivamente ao que o indivíduo tem acesso, ou por questões financeiras, ou por questões sociais. A exemplo da cerveja as mulheres não tem acesso na juventude como a maioria dos homens, pois as mulheres que bebem são taxadas de vagabundas ou “mulher da vida” frente à sociedade (não faça muxoxo se você é homem e pensa diferente, porque isso é real, simplesmente aceite). A nós são oferecidas bebidas delicadas e doces, como roskas, champagnes e Prosecco. Não há como o paladar evoluir para aceitar sabores amargos se esses não são experimentados ao longo da vida! Essa é a questão. E aí que mora o pensamento raso sobre o marketing para cervejas voltadas ao público feminino, promover cervejas leves, adocicadas e delicadas como estereótipo. Essa é uma questão profunda e perdoe me se for tratada superficialmente, mas é que a esta altura do post eu realmente já estou com os miolos fritando. Da próxima vez vamos ter essa conversa no bar, beleza?

img_9223Pois bem, fazer uma cerveja leve e delicada para atingir um determinado público não é o problema, isso eu quero deixar bem claro aqui. O problema está em determinar que essas bebidas são específicas para um gênero. E assim voltamos ao comentário do rapaz ali em cima que se não for para ser bebida pelos genitais, não faz sentido determinar o consumo por gênero.

De maneira geral as pessoas que querem se aventurar pelo mundo cervejeiro começam por cervejas mais leves e adocicadas, e após algum tempo de consumo avançam na escala do amargor da bebida. E isso acontece com PESSOAS em geral. Assim, a tendência é o aumento de consumo das cervejas mais densas e de sabores mais fortes, já que o público começa a qualificar o consumo da cerveja na medida em que as experimentações acontecem. E aqui está o pulo do gato! Cervejarias fabricarem cervejas leves e adocicadas compostas por ingredientes de qualidade e processos coerentes é importante para atrair PESSOAS que ainda estão iniciando sua caminhada pelo mundo cervejeiro, aumentar a base de consumo expandindo a cultura cervejeira por consequência. Contudo o que não podemos de maneira alguma é reproduzir esse discurso de bebidas segregadas por gênero, que não respeita a diversidade das pessoas e nem mesmo o lugar que a mulher vem conquistando ao longo dessa dura caminhada.

E o que aprendemos com isso minha gente? Falar de cerveja delicada? Pode. Falar de cerveja leve? Pode Falar que pessoas que ainda não consomem muita cerveja especial prefere cervejas mais leves? Pode. O que não pode em hipótese alguma é rotular esse líquido sagrado de maneira discriminatória e machista. Cerveja é pra todo mundo!Estamos entendidos?

E por falar nisso, depois de tanto escrever só uma cervejinha gelada pra rebater? Santé!